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"Fierce Leadership" de Susan Scott para Advogados
Em um mundo jurídico que glorifica a combatividade, a verdadeira força reside na coragem de ter conversas honestas. Este post adapta as práticas de "Liderança Feroz" de Susan Scott para a advocacia, mostrando como a transparência radical e a inteligência emocional podem transformar.
No léxico da advocacia, a palavra "feroz" é frequentemente associada à combatividade no tribunal, à agressividade em uma negociação ou à tenacidade implacável na defesa dos interesses de um cliente. Contudo, no best-seller "Fierce Leadership: A Bold Alternative to the Worst 'Best' Practices of Business Today", a consultora e autora Susan Scott propõe uma ressignificação radical do termo. Para Scott, a liderança "feroz" (do inglês, fierce) não se trata de brutalidade, mas de uma robusta e apaixonada busca pela realidade. A obra, que infelizmente ainda não possui uma tradução oficial para o português brasileiro, pode ser entendida como um guia para uma "Liderança Feroz: Uma Alternativa Ousada às Piores 'Melhores' Práticas de Negócios da Atualidade". Partindo do sucesso de seu livro anterior, "Fierce Conversations" (publicado no Brasil como "Conversas Fierce"), a autora argumenta que a unidade fundamental de qualquer organização é a conversa, e que a qualidade da liderança é um reflexo direto da qualidade dessas conversas. Para os sócios-gestores e líderes de equipes jurídicas no Brasil, a obra de Scott é um antídoto poderoso contra as práticas de gestão disfuncionais que, muitas vezes, se escondem sob o verniz da tradição e da formalidade. Ela nos convida a abandonar o "teatro corporativo" e a abraçar uma cultura de transparência, responsabilidade e conexão humana, pilares essenciais para construir escritórios de advocacia que não apenas sobrevivam, mas prosperem em um ambiente de complexidade crescente.
Prática Feroz #1: Do Feedback Anônimo 360° para o Feedback Face a Face 365 Dias por Ano
A primeira prática proposta por Scott ataca um dos rituais mais consagrados e, segundo ela, mais danosos do mundo corporativo: a avaliação de desempenho baseada em feedback anônimo. Em muitos grandes escritórios de advocacia, esse modelo se manifesta em avaliações anuais onde sócios, associados e até estagiários recebem um compilado de opiniões anônimas sobre sua performance. A premissa é que o anonimato encoraja a honestidade. A realidade, contudo, é que ele frequentemente fomenta a passividade-agressividade, a falta de contexto e a impossibilidade de um diálogo construtivo. Uma crítica vaga como "precisa ser mais proativo", lançada anonimamente, não oferece ao advogado um caminho para a melhoria; apenas gera ansiedade e ressentimento. A alternativa "feroz" é a cultura do feedback 365, um fluxo contínuo de conversas honestas e em tempo real. Imagine um sócio sênior que, imediatamente após uma audiência, senta-se com o advogado júnior e diz: "Sua sustentação oral foi bem estruturada, mas percebi que você ficou um pouco abalado quando o desembargador fez aquela pergunta incisiva. Vamos trabalhar em como antecipar esses questionamentos e manter a tranquilidade sob pressão. O que você sentiu naquele momento?". Essa abordagem é direta, específica, contextualizada e, acima de tudo, um convite à conversa. Ela transforma o feedback de um evento anual temido para uma ferramenta de desenvolvimento diário. Implementar essa cultura exige coragem, pois desafia a aversão ao conflito que permeia muitas organizações. Exige que o líder modele o comportamento, tanto ao dar quanto ao pedir feedback de forma aberta, demonstrando que a verdade, mesmo quando desconfortável, é o maior presente que um colega pode oferecer ao outro. É abandonar a covardia do anonimato para abraçar a coragem da conversa real.
Prática Feroz #2: De Contratar por Inteligência para Contratar por Inteligência + Coração
A advocacia, por sua natureza intelectual, sempre supervalorizou a inteligência acadêmica. O processo de seleção tradicional em escritórios de elite é um filtro para os "mais inteligentes": os melhores alunos das melhores faculdades de direito, com as notas mais altas no Exame da Ordem e, preferencialmente, com uma pós-graduação de renome. Susan Scott, alinhada a pensadores como Daniel Goleman, argumenta que essa é uma visão perigosamente incompleta. O sucesso na liderança e na prática jurídica moderna depende muito mais da inteligência emocional — o "coração" — do que do QI puro. As maiores falhas de advogados brilhantes raramente decorrem de um erro técnico, mas sim da dificuldade em lidar com mudanças, da incapacidade de trabalhar em equipe ou de relações interpessoais desastrosas. Um advogado pode ser capaz de redigir o mais complexo dos contratos, mas se ele não consegue gerar empatia para acalmar um cliente em uma delicada disputa de família, ou se sua arrogância impede a colaboração com os colegas, seu brilhantismo técnico se torna um ativo de valor limitado. A prática "feroz" consiste em redesenhar o processo de contratação para avaliar, de forma intencional, atributos como resiliência, autoconsciência, empatia e capacidade de colaboração. Isso se faz através de perguntas comportamentais: "Descreva uma situação em que você precisou dar uma notícia muito ruim a um cliente. Como você se preparou e qual foi o resultado?" ou "Fale sobre um momento em que um colega discordou veementemente de sua abordagem para um caso. Como você lidou com esse conflito?". Scott também sugere a entrevista em equipe, onde o candidato interage com múltiplos membros do time. A forma como ele navega nessa situação de estresse, como se conecta (ou não) com pessoas de diferentes senioridades, revela muito mais sobre seu "coração" do que qualquer certificado acadêmico. Contratar por "inteligência + coração" é reconhecer que, em última análise, a advocacia é uma atividade sobre pessoas, e que a capacidade de se conectar humanamente é tão crucial quanto a capacidade de interpretar a lei.
Prática Feroz #3: De Responsabilizar os Outros para Modelar a Responsabilidade
"Holding people accountable" (responsabilizar as pessoas) é um dos mantras da gestão moderna. No entanto, Scott aponta uma distinção sutil e profunda: a diferença entre "responsabilizar os outros" e "modelar a responsabilidade". A primeira abordagem é externa, baseada em cobrança e, muitas vezes, em uma cultura de culpa. Quando um prazo importante é perdido em um processo, a reação padrão é caçar o culpado: o estagiário que não controlou a publicação, o associado que não revisou a agenda. A segunda abordagem, a "feroz", é interna e começa no topo. O líder assume a responsabilidade radical por tudo o que acontece sob sua supervisão. Scott ilustra isso com a história de um piloto que, após um pouso problemático, ao ser questionado sobre o que aconteceu, simplesmente respondeu: "Eu errei". Ele não culpou o copiloto, o equipamento ou o tempo. Ele assumiu. Na advocacia, isso se traduziria em um sócio-gestor que, diante de um resultado adverso em um caso estratégico, se dirige à equipe e diz: "A tese que escolhemos não prevaleceu. A responsabilidade final por essa estratégia é minha. Agora, vamos analisar juntos onde podemos ter errado e o que vamos aprender com isso para não repetir no futuro". Essa postura não significa assumir culpas que não são suas, mas sim reconhecer que a responsabilidade última pela performance da equipe é do líder. Ao modelar essa atitude, o líder cria um ambiente de segurança psicológica onde os erros não são escondidos, mas sim vistos como oportunidades de aprendizado. A responsabilidade deixa de ser uma arma de punição e se torna uma escolha pessoal, uma atitude de dono que permeia toda a cultura do escritório. Como dizia Gandhi, "seja a mudança que você quer ver no mundo". Para um líder "feroz", isso significa: seja a responsabilidade que você quer ver na sua equipe.
Prática Feroz #4: De Programas de Engajamento para Realmente Engajar Funcionários
Os dados sobre engajamento no trabalho são consistentemente desoladores. Pesquisas do Instituto Gallup mostram que a maioria dos funcionários está ou "não engajada" ou "ativamente desengajada". Escritórios de advocacia não são imunes a essa realidade. A resposta tradicional a esse problema é a criação de "programas de engajamento": pesquisas de clima, eventos de confraternização, novas políticas de benefícios. Scott argumenta que, embora bem-intencionados, esses programas falham porque tentam "legislar" um sentimento. O engajamento não pode ser decretado; ele precisa ser cultivado, conversa por conversa. A prática "feroz" é substituir a artificialidade dos programas pela autenticidade das conexões. Uma sugestão simples e poderosa é começar cada reunião, inclusive as mais formais sobre casos e estratégias, com uma rodada rápida sobre "eventos significativos". Perguntar à equipe o que está acontecendo de importante em suas vidas fora do escritório. Isso pode parecer uma perda de tempo para o advogado focado em produtividade, mas demonstra um interesse genuíno pelas pessoas por trás dos profissionais. Outra ferramenta é a "reunião da bola de praia". Imagine que o escritório é uma bola de praia, e cada membro da equipe (sócio, associado, estagiário, administrativo) está em uma faixa de cor diferente, com uma perspectiva única. Ao discutir um problema complexo ou uma nova estratégia, o líder "feroz" convida pessoas de diferentes "faixas" para a conversa. O que o estagiário que está na linha de frente do protocolo ou a secretária que atende o primeiro telefonema do cliente têm a dizer sobre a experiência do cliente? Suas perspectivas são, muitas vezes, mais valiosas do que as de sócios que estão isolados em suas salas. Engajar funcionários de verdade é reconhecer que a inteligência coletiva da organização reside na diversidade de suas vozes e que o papel do líder é garantir que todas essas vozes sejam ouvidas.
Prática Feroz #5: De Foco no Cliente para Conectividade com o Cliente
Todo escritório de advocacia afirma ter "foco no cliente". No entanto, como aponta Charles Green, autor de "The Trusted Advisor", muitas vezes essa "centralidade" é uma farsa. Prestamos muita atenção ao cliente, mas apenas para descobrir o momento certo de "atacar" e vender um novo serviço. A abordagem "feroz" propõe a substituição da "centralidade" pela "conectividade". O objetivo não é extrair valor do cliente, mas construir uma confiança tão profunda que o valor seja uma consequência natural. Isso começa com um foco em indivíduos, não em empresas. É uma pessoa, um diretor jurídico, um CEO, que decide contratar (ou demitir) o escritório. E essa pessoa é um ser emocional. A conectividade é construída ao desacelerar a conversa, ao resistir à pressa de fechar o negócio e ao investir tempo para entender as pressões, os medos e as aspirações daquele indivíduo. Uma tática radical proposta por Scott é convidar os clientes para as sessões de planejamento. Imagine um escritório que, ao invés de apresentar uma proposta de honorários fechada, convida o cliente para uma reunião de trabalho para desenhar, em conjunto, o escopo do serviço e a estratégia de precificação. A maioria dos advogados recuaria, temendo perder o controle da negociação. O líder "feroz" entende que essa transparência é a forma mais rápida de construir confiança. Por fim, a conectividade se fortalece na adversidade. Nenhum cliente espera uma execução perfeita. Erros acontecem. A diferença está em como lidamos com eles. Reconhecer um erro prontamente, assumir a responsabilidade e apresentar um plano de ação claro para corrigi-lo pode, paradoxalmente, fortalecer a relação de confiança mais do que se o erro nunca tivesse ocorrido. A conectividade transforma a relação cliente-advogado de uma transação para uma parceria genuína.
Prática Feroz #6: Do Otimismo Legislado para a Transparência Radical
A prática final é talvez a mais desafiadora, especialmente em estruturas hierárquicas como as dos escritórios de advocacia. O "otimismo legislado" é a cultura do "não me traga problemas, me traga soluções", onde as más notícias são filtradas à medida que sobem na hierarquia, e o líder acaba vivendo em uma bolha de informações positivas, mas falsas. É a cultura onde discordar do sócio-fundador é um suicídio profissional. A alternativa "feroz" é a transparência radical. Scott usa a palavra "mokita", da língua da Papua-Nova Guiné, que significa "a verdade que todos conhecem, mas ninguém fala". Em todo escritório existe um "mokita": o sócio que não performa, mas é intocável; o cliente importante, mas abusivo, que ninguém tem coragem de demitir; a estratégia que todos sabem que está falhando, mas ninguém ousa questionar. A transparência radical é a prática de arrastar os "mokitas" para o centro da sala e falar sobre eles abertamente. Isso não significa que todas as opiniões serão aceitas ou que a gestão se tornará um processo de consenso. Significa que todas as perspectivas serão consideradas para que a decisão final seja baseada na realidade, não na ficção. Um líder "feroz" cria canais seguros para o dissenso. Ele ativamente busca opiniões contrárias, recompensa aqueles que têm a coragem de dizer "eu discordo, e eis o porquê", e demonstra, por meio de suas ações, que a lealdade à verdade é mais valorizada do que a lealdade cega à hierarquia. Adotar a liderança "feroz" não é um caminho fácil. Exige uma introspecção profunda, a coragem de ser vulnerável e a disposição para ter conversas que nos deixam desconfortáveis. No entanto, para os líderes da advocacia brasileira que estão genuinamente comprometidos em construir escritórios resilientes, inovadores e humanizados, as práticas propostas por Susan Scott não são apenas uma alternativa; são o único caminho possível.
"Fascinate" de Sally Hogshead para Advogados
No universo jurídico, onde a diferenciação é crucial, a capacidade de fascinar pode ser o maior ativo de um advogado. Através dos 7 gatilhos da persuasão de Sally Hogshead, este post explora como advogados brasileiros podem cativar clientes, construir uma reputação sólida e se destacar.
No competitivo e cada vez mais ruidoso universo da advocacia brasileira, a excelência técnica, antes um diferencial incontestável, hoje se tornou um requisito básico, uma commodity. Em um mercado onde milhares de profissionais competentes disputam a atenção de um mesmo público, o conhecimento jurídico aprofundado, por si só, já não é suficiente para garantir destaque, crescimento e prosperidade. A verdadeira diferenciação, o fator que eleva um advogado de mero prestador de serviços a um conselheiro indispensável, reside em um elemento mais sutil, porém imensamente mais poderoso: a capacidade de fascinar. No livro "Fascinate: Your 7 Triggers to Persuasion and Captivation", publicado no Brasil com o título "Fascinação: Os 7 Segredos Para Cativar o Mundo À Sua Volta", a especialista em branding e ex-executiva de publicidade Sally Hogshead desvenda os mecanismos que tornam pessoas, ideias e marcas impossíveis de resistir. A obra, embora concebida para o mundo do marketing e da comunicação, oferece um roteiro transformador para advogados que aspiram transcender a lógica fria dos autos e construir uma marca pessoal e profissional que verdadeiramente cative. Ao dominar os sete gatilhos da fascinação — luxúria, mistério, alarme, prestígio, poder, vício e confiança — o profissional do direito pode redefinir a maneira como sua prática é percebida, forjando conexões emocionais profundas e duradouras que superam qualquer argumento puramente racional.
O primeiro gatilho, a luxúria, pode, em uma análise superficial, parecer um conceito antagônico à sobriedade e à formalidade inerentes à advocacia. Hogshead, contudo, o desassocia de sua conotação puramente carnal, redefinindo-o como uma antecipação aguçada pelo prazer sensorial, um desejo ardente por uma experiência. Para o advogado, isso se traduz em criar uma demanda apaixonada por seus serviços, uma experiência que transcende a resolução de um problema jurídico e envolve os sentidos do cliente. Imaginemos um escritório boutique especializado em direito empresarial para o mercado de luxo, com sede em um endereço icônico de São Paulo. A experiência do cliente é meticulosamente orquestrada desde o primeiro clique. O website não é um mero portal informativo, mas uma obra de arte digital, com design minimalista, tipografia elegante e uma usabilidade que transmite ordem e clareza. As propostas de honorários são apresentadas não como orçamentos, mas como projetos de consultoria, impressos em papel de alta gramatura e entregues em envelopes personalizados. A comunicação é proativa, antecipando dúvidas e fornecendo atualizações de forma a gerar tranquilidade e uma sensação de controle. O próprio ambiente físico do escritório, com sua arquitetura premiada, mobiliário de design assinado e um café gourmet, reforça essa imersão sensorial. O cliente não está apenas contratando um parecer jurídico; ele anseia pela sensação de pertencimento, pelo prazer de ser assessorado por um profissional que personifica a atenção aos detalhes. Essa "luxúria" pela experiência torna a discussão sobre honorários um aspecto secundário, fortalecendo a percepção de valor e criando uma clientela fiel, que não apenas retorna, mas se torna embaixadora da marca.
O segundo gatilho, o mistério, explora a inata curiosidade humana, a atração magnética por aquilo que não é completamente revelado, pelo que se esconde nas entrelinhas. Em um campo como o direito, que preza pela clareza, objetividade e transparência, o uso do mistério pode parecer contraintuitivo, mas revela-se uma ferramenta de enorme eficácia quando manejado com inteligência e ética. Advogados podem cultivar o mistério ao se posicionarem como detentores de um conhecimento raro, de uma perspectiva única, quase como guardiões de um "molho secreto". Considere um advogado tributarista que desenvolveu uma tese inovadora para a recuperação de créditos fiscais, uma metodologia proprietária que não é divulgada em seminários ou artigos acadêmicos. Ele não oculta sua área de atuação, mas os detalhes precisos de sua estratégia são um segredo bem guardado, compartilhado apenas no âmbito da relação de confiança com seus clientes. Em suas palestras e publicações, ele discorre sobre os resultados impressionantes que sua tese proporciona, demonstra os benefícios econômicos e a segurança jurídica, mas nunca revela o "como". Essa retenção deliberada de informação cria um burburinho no mercado. Concorrentes e potenciais clientes se perguntam: "Qual é o segredo dele? Como ele alcança essa performance?". A mitologia em torno de sua prática começa a se formar, e o valor passa a residir não apenas na tese em si, mas no segredo que a envolve. De forma análoga, um escritório especializado em fusões e aquisições (M&A) pode cultivar o mistério ao ser notoriamente seletivo e discreto, tornando-se conhecido no mercado como a banca que "só atua nos casos mais complexos e confidenciais". O acesso limitado e a aura de exclusividade geram uma atração poderosa, fazendo com que os clientes mais sofisticados do mercado desejem ardentemente desvendar esse mistério e fazer parte desse círculo restrito, onde a discrição é, em si, um dos maiores ativos.
O gatilho do alarme, por sua natureza, é o mais familiar para os advogados, cuja rotina é permeada por prazos processuais, gestão de riscos e a constante avaliação das consequências negativas de uma ação ou inação. O alarme é um poderoso catalisador que compele à ação urgente. A advocacia preventiva, em sua essência, é uma aplicação direta deste gatilho. Um especialista em Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), por exemplo, não vende apenas um "projeto de adequação"; ele vende a prevenção de uma crise reputacional e financeira. Ao apresentar a um potencial cliente os riscos tangíveis de um incidente de segurança — multas que podem chegar a 50 milhões de reais aplicadas pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), danos irreparáveis à imagem da marca, ações judiciais individuais e coletivas — ele está ativando o alarme. A ameaça de consequências severas e imediatas motiva a diretoria da empresa a agir com a devida celeridade. A eficácia deste gatilho reside na especificidade e na iminência da ameaça. Não basta um aviso genérico como "você precisa se adequar à LGPD". É preciso pintar um quadro vívido e detalhado das consequências: "Imagine o impacto de uma multa de 2% do seu faturamento global no fluxo de caixa do próximo trimestre" ou "Pense na sua marca, construída ao longo de décadas, sendo manchete em portais de notícias por um vazamento de dados de clientes". A criação de um prazo claro, ligado a um evento externo, também é fundamental: "Temos 90 dias para implementar as mudanças essenciais antes da próxima rodada de fiscalização setorial anunciada pela ANPD". Quando utilizado com ética e responsabilidade, o alarme não se trata de amedrontar, mas de instilar um senso de urgência que leva à proteção, à conformidade e à mitigação de riscos, posicionando o advogado como o guardião indispensável que protege o cliente do perigo iminente.
O prestígio é o gatilho do respeito, da admiração e do status, criando uma diferenciação hierárquica clara e aspiracional. Na advocacia, o prestígio é uma moeda de valor inestimável, construída através de símbolos de conquista que sinalizam ao mercado que o profissional está no ápice de sua área de atuação. Um advogado que ostenta um título de LL.M. por uma universidade da Ivy League, como Harvard ou Columbia, ativa imediatamente o gatilho do prestígio. O diploma transcende sua natureza de documento; ele se torna um emblema de excelência acadêmica, rigor intelectual e acesso a uma rede de contatos de elite. Publicar um livro pela principal editora jurídica do país ou ter artigos de sua autoria citados em decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou do Supremo Tribunal Federal (STF) são outras formas poderosas de solidificar o prestígio. Tais feitos são sinais inequívocos de que seu conhecimento não é apenas profundo, mas também validado e reconhecido pelas mais altas instâncias do saber jurídico. O prestígio também pode ser construído por associação. Assumir a presidência de uma comissão relevante na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ou palestrar em um congresso ao lado de um renomado ministro transfere parte do prestígio dessas instituições e personalidades para o advogado. Limitar a disponibilidade, como Hogshead sugere, é outra tática sofisticada. Um parecerista que cobra honorários significativamente acima da média de mercado e cuja agenda possui uma longa lista de espera não está apenas vendendo seu tempo; está vendendo exclusividade e, por conseguinte, prestígio. A mensagem implícita é poderosa: "Meu conhecimento é um recurso tão valioso e raro que apenas alguns poucos selecionados podem ter acesso a ele". Ao cultivar diligentemente o prestígio, o advogado transcende a competição por preço e passa a ser desejado por seu status, pela admiração que inspira e pela promessa de excelência que sua marca pessoal representa.
O gatilho do poder refere-se à capacidade de comandar e controlar um ambiente, de influenciar o comportamento e as decisões dos outros. Um advogado que domina este gatilho não precisa levantar a voz para ser ouvido; sua autoridade é sentida, respeitada e seguida. Ele comanda a atmosfera, seja em uma tensa sala de reuniões, em uma complexa mesa de negociação ou no ambiente solene de um tribunal. Pense em um sócio sênior de um grande escritório de advocacia conduzindo uma negociação de M&A. Ele controla cada detalhe da interação com maestria. Ele define a pauta, gerencia o tempo com precisão e guia a conversa com perguntas cirúrgicas e intervenções estratégicas. Sua linguagem corporal é um estudo em calma e confiança. Ele ouve mais do que fala, e quando se pronuncia, suas palavras carregam o peso da experiência e da autoridade. Ele não cede à pressão, mas demonstra uma inteligência emocional aguçada ao saber o momento exato de fazer uma concessão tática para destravar a negociação. Essa demonstração de poder não tem a ver com arrogância, mas com domínio e controle. Ele transmite à outra parte a sensação de que estão em mãos seguras, que ele tem o controle da situação e que os conduzirá ao melhor resultado possível. Em uma audiência de instrução, o advogado que utiliza o gatilho do poder é aquele que, através de sua postura ereta, seu tom de voz firme e da lógica irrefutável de sua argumentação, captura a atenção do magistrado e domina o plenário. Ele não é reativo aos acontecimentos; ele é proativo, antecipando os argumentos da parte contrária e tendo as refutações já preparadas. Ao controlar os pequenos detalhes — a organização impecável dos documentos, a pontualidade britânica, a forma respeitosa, mas firme, como se dirige a cada um dos presentes — ele estabelece um domínio sobre o ambiente que o posiciona como a figura central, a autoridade cuja narrativa prevalece.
O gatilho do vício, ou da "fruta proibida", pode, à primeira vista, parecer o mais inadequado e perigoso para a advocacia, uma profissão estritamente pautada pela ética, pela legalidade e pela norma. Hogshead, no entanto, o define como o desejo irresistível de se rebelar contra as convenções, de desafiar o status quo e de experimentar o que é diferente, ousado e até um pouco transgressor. Para os advogados, o vício pode ser traduzido como o gatilho da inovação disruptiva. Em um mercado notavelmente conservador e avesso a mudanças, quebrar as regras estabelecidas (dentro dos limites éticos, claro) pode ser a forma mais rápida e eficaz de se destacar. Pense em uma "lawtech" que desafia o modelo de negócios secular dos escritórios de advocacia. Em vez de faturar por hora, um modelo que gera imprevisibilidade para o cliente, ela oferece um plano de assinatura mensal para startups, garantindo acesso ilimitado a uma gama de serviços jurídicos essenciais. Essa abordagem é vista com desconfiança e até com certo desdém pela advocacia mais tradicional; é o "vício" de abandonar a segurança do faturamento por hora. Contudo, para o público-alvo — empreendedores de tecnologia acostumados com modelos de negócio escaláveis e previsíveis como SaaS (Software as a Service) — essa proposta é não apenas atraente, mas irresistível. Outro exemplo seria um advogado que adota uma comunicação radicalmente informal e direta nas redes sociais, traduzindo temas jurídicos áridos e complexos para uma linguagem que qualquer leigo pode compreender, utilizando analogias, storytelling e até mesmo humor. Ele quebra o tabu da formalidade excessiva e da sobriedade que historicamente cerca a profissão. Ele certamente será criticado por seus pares mais conservadores, mas, em contrapartida, construirá uma tribo de seguidores que se identificam com sua autenticidade e que o percebem como um profissional acessível, humano e moderno. Ao abraçar o "vício" da inovação e da quebra de paradigmas, o advogado se torna uma figura intrigante e magnética, atraindo um público que está farto do "mais do mesmo" e que busca parceiros de negócio que falem a sua língua.
Finalmente, chegamos ao gatilho da confiança, o alicerce sobre o qual todas as relações humanas e profissionais duradouras são construídas, especialmente na advocacia, onde a matéria-prima do trabalho é, muitas vezes, a vida, o patrimônio e a liberdade do cliente. A confiança é o gatilho do conforto, da segurança, da certeza e da previsibilidade. Enquanto os outros seis gatilhos podem ser ativados de forma relativamente rápida para capturar a atenção, a confiança é o único que é construído pacientemente, ao longo do tempo, através da consistência, da integridade e da familiaridade. Um advogado constrói confiança ao ser absolutamente previsível em sua excelência. Cada petição é impecável, cada prazo é rigorosamente cumprido, cada telefonema é retornado, cada promessa é honrada. O cliente desenvolve a certeza de que pode esperar um serviço de altíssima qualidade, sempre. A repetição e a consistência são fundamentais. Um advogado que publica um artigo de alta qualidade toda semana em seu blog ou que envia uma newsletter mensal com insights genuinamente valiosos está, interação após interação, construindo familiaridade e autoridade. Com o tempo, os leitores passam a confiar em sua expertise antes mesmo de se tornarem clientes. O "efeito de exposição" que Hogshead menciona é poderoso: quanto mais somos expostos a algo ou alguém de forma positiva, mais confiamos. A confiança também pode ser "emprestada" para acelerar o processo.
Um advogado que é calorosamente recomendado por um cliente satisfeito já inicia a nova relação com um saldo positivo de confiança. Da mesma forma, ao se associar a instituições de notória credibilidade — como o Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) para um advogado de família, ou a Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) — ele empresta a confiança que o público já deposita nessas instituições seculares. Em última análise, a confiança é o cimento que une todos os outros gatilhos, conferindo-lhes substância e longevidade. Sem ela, a luxúria é efêmera, o mistério se torna suspeita, o alarme vira pânico, o prestígio soa como arrogância, o poder se torna tirania e o vício leva à autodestruição. É a confiança que transforma um cliente de primeira viagem em um defensor fervoroso da sua marca, que não apenas retorna, mas se torna um "advogado" da sua advocacia, recomendando seus serviços com a convicção de quem indica um porto seguro. Para o advogado brasileiro, cujo trabalho é regido por um estrito Código de Ética e Disciplina da OAB, a confiança não é apenas um gatilho de marketing; é a essência da própria profissão. Dominar a arte de construir e manter a confiança é, portanto, o passo final e mais crucial para se tornar verdadeiramente e permanentemente fascinante.
"Awesomely Simple" de John Spence para Advogados (Copy)
A complexidade do Direito exige uma gestão simples e eficaz. John Spence, em "Awesomely Simple", destila décadas de experiência em seis princípios fundamentais para o sucesso. Este post traduz essa sabedoria para a realidade da advocacia brasileira, oferecendo um guia para sócios prosperarem.
No labirinto de códigos, doutrinas e jurisprudências que define o universo jurídico, a busca pela simplicidade pode soar como uma heresia. Advogados são treinados para dominar a complexidade, para encontrar nuances em cláusulas contratuais e para navegar em processos que se arrastam por anos. Contudo, a complexidade que é uma virtude na análise de um caso pode ser um veneno mortal na gestão de um escritório. É precisamente essa a tese central de John Spence em sua obra "Awesomely Simple" (em uma tradução livre, "Incrivelmente Simples"). Spence, que dedicou décadas a estudar os padrões de sucesso em centenas de empresas, argumenta que os negócios mais bem-sucedidos do mundo se baseiam em seis princípios fundamentais, executados com uma disciplina implacável. A genialidade não está em reinventar a roda, mas em dominar o básico com uma profundidade que beira a obsessão. Para os sócios-gestores e líderes de bancas jurídicas no Brasil, que frequentemente se veem afogados em desafios administrativos que pouco têm a ver com a prática do Direito, as lições de Spence são mais do que relevantes; são um manual de sobrevivência e prosperidade. Este post se propõe a desvendar esses seis princípios, traduzindo-os para o contexto específico e desafiador da advocacia brasileira.
O primeiro pilar, e talvez o mais negligenciado no ambiente jurídico, é a Visão Vívida. A maioria dos escritórios possui uma "missão, visão e valores" emoldurada na parede da recepção, mas que raramente sobrevive ao primeiro contato com a rotina diária. Spence, alinhado a pensadores como Guy Kawasaki, defende que uma visão eficaz não é um parágrafo rebuscado e esquecível, mas um mantra – uma frase curta, poderosa e repetível que serve como uma bússola para todas as decisões. Para um escritório de advocacia, em vez de uma declaração genérica como "ser referência em excelência jurídica", uma visão vívida poderia ser "Descomplicar o Direito Empresarial para startups" ou "Garantir a tranquilidade sucessória de famílias no agronegócio". Essa clareza tem um poder transformador. Ela informa que tipo de cliente prospectar, que tipo de advogado contratar e, crucialmente, que tipo de trabalho recusar. A visão só ganha vida, contudo, através da comunicação incessante. O sócio-gestor deve repeti-la em reuniões, em avaliações de desempenho e em conversas de corredor, até que cada membro da equipe – do estagiário ao sócio sênior – a internalize. Mais importante, o líder deve personificar essa visão. Se a visão é sobre inovação, ele não pode ser o último a adotar uma nova tecnologia. Se é sobre atendimento excepcional, ele não pode deixar de retornar uma ligação importante. A visão se torna o padrão pelo qual a mediocridade é confrontada e a excelência é medida, deixando de ser um quadro na parede para se tornar o verdadeiro sistema operacional da banca.
Uma visão clara, por si só, não constrói nada. Ela precisa ser executada pelas Melhores Pessoas, o segundo princípio de Spence. A máxima de que "as pessoas são nosso maior ativo" é uma meia-verdade perigosa. A verdade completa é que as pessoas talentosas são o maior ativo, enquanto as pessoas desalinhadas ou de baixo desempenho são o maior passivo. Em um escritório de advocacia, onde o produto final é o intelecto e a reputação, isso é ainda mais crítico. Spence propõe um filtro simples e poderoso para identificar talentos: os cinco "Cs": Competência, Caráter, Colaboração, Comunicação e Comprometimento. A competência técnica é o ponto de partida, mas sem um caráter íntegro, a competência pode ser usada de forma antiética, destruindo a reputação do escritório. Sem colaboração, advogados brilhantes se tornam silos de informação, minando o trabalho em equipe. Sem uma comunicação clara, as melhores teses jurídicas se perdem em petições confusas ou em argumentos mal articulados perante um juiz. E sem comprometimento com a visão do escritório, o talento se torna mercenário, pronto para partir ao primeiro sinal de uma oferta melhor. O papel do líder é ser implacável na atração de pessoas que personifiquem esses cinco "Cs" e, igualmente implacável, em remover aqueles que consistentemente falham em demonstrá-los, pois o funcionário de pior desempenho define o padrão mínimo aceitável para toda a organização. Para reter os melhores, o dinheiro é importante, mas não é tudo. Estudos mostram que o que os talentos realmente buscam é a oportunidade de realizar um trabalho significativo em casos importantes, ao lado de outros profissionais talentosos, e o reconhecimento sincero por sua contribuição. A boa notícia, como aponta Spence, é que oferecer reconhecimento genuíno não custa absolutamente nada.
O terceiro princípio, a Comunicação Robusta, é o sistema circulatório de qualquer organização de sucesso. Spence afirma que o problema número um em empresas com dificuldades é a falta de uma comunicação aberta, honesta, corajosa e robusta. No ambiente jurídico, tradicionalmente formal e hierárquico, isso é um desafio monumental. Uma comunicação robusta se baseia em seis elementos. Honestidade: dizer a verdade, sempre, mesmo quando é difícil. Empatia: dizer a verdade de forma direta, mas respeitosa. Há uma arte em ser franco sem ser grosseiro. Coragem: colocar tópicos desconfortáveis sobre a mesa, como o desempenho de um sócio ou a insatisfação de um cliente importante. Segurança: criar um ambiente onde as pessoas não sejam punidas por dizerem a verdade. Rigor Intelectual: um conceito brilhante de Spence que diz que "as pessoas devem estar seguras, as ideias não". Desafiar as ideias uns dos outros, de forma respeitosa, é o que leva às melhores estratégias processuais e soluções para os clientes. Transparência: a informação deve fluir livremente. Como um advogado pode tomar a melhor decisão para o cliente se não entende a situação financeira do escritório ou a estratégia de longo prazo da banca? A comunicação robusta quebra as barreiras da fofoca e da política interna, alinhando todos na mesma direção e permitindo que as melhores ideias, não as hierarquias, vençam.
Em um mundo onde uma nova súmula vinculante pode mudar um cenário jurídico da noite para o dia, o quarto princípio, o Senso de Urgência, é crucial. A advocacia não é mais uma profissão de ritmo lento. Os clientes esperam respostas rápidas, soluções eficientes e um serviço de alta qualidade a um preço competitivo. A velocidade, portanto, tornou-se uma vantagem competitiva. Para que a velocidade não se transforme em caos, é preciso descentralizar a tomada de decisão. A burocracia, onde cada pequena decisão precisa passar pelo sócio-gestor, é o inimigo da urgência. Spence oferece um modelo de quatro níveis de decisão para empoderar a equipe. Nível 1: decisões que um advogado ou membro da equipe pode tomar sozinho (ex: responder a um e-mail de rotina de um cliente). Nível 2: decisões que exigem o conselho de uma pessoa apropriada (ex: um advogado júnior consultando um sênior sobre uma tese jurídica). Nível 3: decisões que exigem uma deliberação em equipe (ex: a estratégia para um caso de alta complexidade). Nível 4: decisões que cabem apenas ao sócio-diretor (ex: a fusão com outro escritório). O papel do líder é deixar esses níveis claros e treinar a equipe para operar dentro deles. Quando um advogado traz um problema que ele mesmo poderia resolver, o líder deve devolvê-lo, dizendo "essa é uma decisão de Nível 1". Isso força a responsabilidade e a autonomia, liberando o tempo do líder para focar nas decisões que realmente importam.
O quinto princípio, a Execução Disciplinada, é onde a maioria das estratégias brilhantes morre. Ter uma boa ideia é fácil; executá-la consistentemente é o que separa os escritórios de sucesso dos medíocres. Spence detalha um processo de nove passos, que pode ser adaptado para a advocacia. Começa com a Visão e Valores claros, que guiam a Estratégia – o foco em poucas áreas críticas que trarão o maior retorno, como fez Steve Jobs ao reduzir drasticamente as linhas de produtos da Apple. Isso exige Comprometimento de toda a equipe e Alinhamento completo, desde a visão até as tarefas diárias. Para garantir a consistência, são necessários Sistemas – checklists para due diligence, modelos para petições, processos para onboarding de novos clientes. O objetivo é tornar o sucesso repetível. A Comunicação de Prioridades deve ser constante, garantindo que todos saibam o que é mais importante. A equipe precisa de Suporte e Treinamento contínuos para se manter na vanguarda. O processo de Ajustar e Inovar deve ser perpétuo, medindo os indicadores corretos (como tempo médio de processo, taxa de sucesso em recursos, nível de satisfação do cliente) e tomando ações corretivas. Finalmente, é preciso Recompensar e Punir: celebrar generosamente aqueles que executam com excelência e tomar ações corretivas com aqueles que não o fazem, seja através de mais treinamento, realocação ou, em último caso, o desligamento.
Por fim, o sexto princípio é o Foco Extremo no Cliente. Em um mercado jurídico cada vez mais competitivo, a única vantagem sustentável a longo prazo é a capacidade de servir o cliente melhor do que ninguém. Pesquisas mostram que o que os clientes mais valorizam são cinco coisas: Confiabilidade (o escritório cumpre o que promete), Profissionalismo (competência e comportamento ético), Empatia (sentir que o advogado realmente se importa com seu problema), Responsividade (respostas rápidas e comunicação proativa) e Ambiente (desde a qualidade do escritório físico até a facilidade de uso do portal do cliente online). A lista não é complexa, mas executá-la com perfeição é um desafio. O segredo, segundo Spence, é elegantemente simples: contrate pela atitude, treine pela habilidade. É possível ensinar a um jovem advogado os meandros do Recurso Especial, mas é quase impossível ensinar empatia ou uma ética de trabalho incansável a alguém que não as possui intrinsecamente. Ao montar uma equipe de pessoas que genuinamente se importam em servir, e dando a elas os sistemas e o treinamento para fazerem isso bem, um escritório de advocacia deixa de vender horas e passa a vender tranquilidade, confiança e resultados, criando uma base de clientes leais que se tornam seus maiores vendedores.
Em suma, a proposta de "Awesomely Simple" não é sobre simplificar o Direito, mas sobre aplicar uma simplicidade poderosa à gestão da prática jurídica. Os seis princípios de John Spence – Visão Vívida, Melhores Pessoas, Comunicação Robusta, Senso de Urgência, Execução Disciplinada e Foco Extremo no Cliente – formam um sistema integrado e interdependente. Eles exigem que os líderes de escritórios de advocacia abandonem a complexidade desnecessária e a burocracia paralisante para se concentrarem, com uma disciplina quase monástica, no que é verdadeiramente essencial para construir uma banca próspera e duradoura. A simplicidade, afinal, não é o ponto de partida, mas o destino final de quem domina a complexidade – um lugar que, como diria Oliver Wendell Holmes, vale a pena dedicar a vida para alcançar.
"Awesomely Simple" de John Spence para Advogados
A complexidade do Direito exige uma gestão simples e eficaz. John Spence, em "Awesomely Simple", destila décadas de experiência em seis princípios fundamentais para o sucesso. Este post traduz essa sabedoria para a realidade da advocacia brasileira, oferecendo um guia para sócios prosperarem.
No labirinto de códigos, doutrinas e jurisprudências que define o universo jurídico, a busca pela simplicidade pode soar como uma heresia. Advogados são treinados para dominar a complexidade, para encontrar nuances em cláusulas contratuais e para navegar em processos que se arrastam por anos. Contudo, a complexidade que é uma virtude na análise de um caso pode ser um veneno mortal na gestão de um escritório. É precisamente essa a tese central de John Spence em sua obra "Awesomely Simple" (em uma tradução livre, "Incrivelmente Simples"). Spence, que dedicou décadas a estudar os padrões de sucesso em centenas de empresas, argumenta que os negócios mais bem-sucedidos do mundo se baseiam em seis princípios fundamentais, executados com uma disciplina implacável. A genialidade não está em reinventar a roda, mas em dominar o básico com uma profundidade que beira a obsessão. Para os sócios-gestores e líderes de bancas jurídicas no Brasil, que frequentemente se veem afogados em desafios administrativos que pouco têm a ver com a prática do Direito, as lições de Spence são mais do que relevantes; são um manual de sobrevivência e prosperidade. Este post se propõe a desvendar esses seis princípios, traduzindo-os para o contexto específico e desafiador da advocacia brasileira.
O primeiro pilar, e talvez o mais negligenciado no ambiente jurídico, é a Visão Vívida. A maioria dos escritórios possui uma "missão, visão e valores" emoldurada na parede da recepção, mas que raramente sobrevive ao primeiro contato com a rotina diária. Spence, alinhado a pensadores como Guy Kawasaki, defende que uma visão eficaz não é um parágrafo rebuscado e esquecível, mas um mantra – uma frase curta, poderosa e repetível que serve como uma bússola para todas as decisões. Para um escritório de advocacia, em vez de uma declaração genérica como "ser referência em excelência jurídica", uma visão vívida poderia ser "Descomplicar o Direito Empresarial para startups" ou "Garantir a tranquilidade sucessória de famílias no agronegócio". Essa clareza tem um poder transformador. Ela informa que tipo de cliente prospectar, que tipo de advogado contratar e, crucialmente, que tipo de trabalho recusar. A visão só ganha vida, contudo, através da comunicação incessante. O sócio-gestor deve repeti-la em reuniões, em avaliações de desempenho e em conversas de corredor, até que cada membro da equipe – do estagiário ao sócio sênior – a internalize. Mais importante, o líder deve personificar essa visão. Se a visão é sobre inovação, ele não pode ser o último a adotar uma nova tecnologia. Se é sobre atendimento excepcional, ele não pode deixar de retornar uma ligação importante. A visão se torna o padrão pelo qual a mediocridade é confrontada e a excelência é medida, deixando de ser um quadro na parede para se tornar o verdadeiro sistema operacional da banca.
Uma visão clara, por si só, não constrói nada. Ela precisa ser executada pelas Melhores Pessoas, o segundo princípio de Spence. A máxima de que "as pessoas são nosso maior ativo" é uma meia-verdade perigosa. A verdade completa é que as pessoas talentosas são o maior ativo, enquanto as pessoas desalinhadas ou de baixo desempenho são o maior passivo. Em um escritório de advocacia, onde o produto final é o intelecto e a reputação, isso é ainda mais crítico. Spence propõe um filtro simples e poderoso para identificar talentos: os cinco "Cs": Competência, Caráter, Colaboração, Comunicação e Comprometimento. A competência técnica é o ponto de partida, mas sem um caráter íntegro, a competência pode ser usada de forma antiética, destruindo a reputação do escritório. Sem colaboração, advogados brilhantes se tornam silos de informação, minando o trabalho em equipe. Sem uma comunicação clara, as melhores teses jurídicas se perdem em petições confusas ou em argumentos mal articulados perante um juiz. E sem comprometimento com a visão do escritório, o talento se torna mercenário, pronto para partir ao primeiro sinal de uma oferta melhor. O papel do líder é ser implacável na atração de pessoas que personifiquem esses cinco "Cs" e, igualmente implacável, em remover aqueles que consistentemente falham em demonstrá-los, pois o funcionário de pior desempenho define o padrão mínimo aceitável para toda a organização. Para reter os melhores, o dinheiro é importante, mas não é tudo. Estudos mostram que o que os talentos realmente buscam é a oportunidade de realizar um trabalho significativo em casos importantes, ao lado de outros profissionais talentosos, e o reconhecimento sincero por sua contribuição. A boa notícia, como aponta Spence, é que oferecer reconhecimento genuíno não custa absolutamente nada.
O terceiro princípio, a Comunicação Robusta, é o sistema circulatório de qualquer organização de sucesso. Spence afirma que o problema número um em empresas com dificuldades é a falta de uma comunicação aberta, honesta, corajosa e robusta. No ambiente jurídico, tradicionalmente formal e hierárquico, isso é um desafio monumental. Uma comunicação robusta se baseia em seis elementos. Honestidade: dizer a verdade, sempre, mesmo quando é difícil. Empatia: dizer a verdade de forma direta, mas respeitosa. Há uma arte em ser franco sem ser grosseiro. Coragem: colocar tópicos desconfortáveis sobre a mesa, como o desempenho de um sócio ou a insatisfação de um cliente importante. Segurança: criar um ambiente onde as pessoas não sejam punidas por dizerem a verdade. Rigor Intelectual: um conceito brilhante de Spence que diz que "as pessoas devem estar seguras, as ideias não". Desafiar as ideias uns dos outros, de forma respeitosa, é o que leva às melhores estratégias processuais e soluções para os clientes. Transparência: a informação deve fluir livremente. Como um advogado pode tomar a melhor decisão para o cliente se não entende a situação financeira do escritório ou a estratégia de longo prazo da banca? A comunicação robusta quebra as barreiras da fofoca e da política interna, alinhando todos na mesma direção e permitindo que as melhores ideias, não as hierarquias, vençam.
Em um mundo onde uma nova súmula vinculante pode mudar um cenário jurídico da noite para o dia, o quarto princípio, o Senso de Urgência, é crucial. A advocacia não é mais uma profissão de ritmo lento. Os clientes esperam respostas rápidas, soluções eficientes e um serviço de alta qualidade a um preço competitivo. A velocidade, portanto, tornou-se uma vantagem competitiva. Para que a velocidade não se transforme em caos, é preciso descentralizar a tomada de decisão. A burocracia, onde cada pequena decisão precisa passar pelo sócio-gestor, é o inimigo da urgência. Spence oferece um modelo de quatro níveis de decisão para empoderar a equipe. Nível 1: decisões que um advogado ou membro da equipe pode tomar sozinho (ex: responder a um e-mail de rotina de um cliente). Nível 2: decisões que exigem o conselho de uma pessoa apropriada (ex: um advogado júnior consultando um sênior sobre uma tese jurídica). Nível 3: decisões que exigem uma deliberação em equipe (ex: a estratégia para um caso de alta complexidade). Nível 4: decisões que cabem apenas ao sócio-diretor (ex: a fusão com outro escritório). O papel do líder é deixar esses níveis claros e treinar a equipe para operar dentro deles. Quando um advogado traz um problema que ele mesmo poderia resolver, o líder deve devolvê-lo, dizendo "essa é uma decisão de Nível 1". Isso força a responsabilidade e a autonomia, liberando o tempo do líder para focar nas decisões que realmente importam.
O quinto princípio, a Execução Disciplinada, é onde a maioria das estratégias brilhantes morre. Ter uma boa ideia é fácil; executá-la consistentemente é o que separa os escritórios de sucesso dos medíocres. Spence detalha um processo de nove passos, que pode ser adaptado para a advocacia. Começa com a Visão e Valores claros, que guiam a Estratégia – o foco em poucas áreas críticas que trarão o maior retorno, como fez Steve Jobs ao reduzir drasticamente as linhas de produtos da Apple. Isso exige Comprometimento de toda a equipe e Alinhamento completo, desde a visão até as tarefas diárias. Para garantir a consistência, são necessários Sistemas – checklists para due diligence, modelos para petições, processos para onboarding de novos clientes. O objetivo é tornar o sucesso repetível. A Comunicação de Prioridades deve ser constante, garantindo que todos saibam o que é mais importante. A equipe precisa de Suporte e Treinamento contínuos para se manter na vanguarda. O processo de Ajustar e Inovar deve ser perpétuo, medindo os indicadores corretos (como tempo médio de processo, taxa de sucesso em recursos, nível de satisfação do cliente) e tomando ações corretivas. Finalmente, é preciso Recompensar e Punir: celebrar generosamente aqueles que executam com excelência e tomar ações corretivas com aqueles que não o fazem, seja através de mais treinamento, realocação ou, em último caso, o desligamento.
Por fim, o sexto princípio é o Foco Extremo no Cliente. Em um mercado jurídico cada vez mais competitivo, a única vantagem sustentável a longo prazo é a capacidade de servir o cliente melhor do que ninguém. Pesquisas mostram que o que os clientes mais valorizam são cinco coisas: Confiabilidade (o escritório cumpre o que promete), Profissionalismo (competência e comportamento ético), Empatia (sentir que o advogado realmente se importa com seu problema), Responsividade (respostas rápidas e comunicação proativa) e Ambiente (desde a qualidade do escritório físico até a facilidade de uso do portal do cliente online). A lista não é complexa, mas executá-la com perfeição é um desafio. O segredo, segundo Spence, é elegantemente simples: contrate pela atitude, treine pela habilidade. É possível ensinar a um jovem advogado os meandros do Recurso Especial, mas é quase impossível ensinar empatia ou uma ética de trabalho incansável a alguém que não as possui intrinsecamente. Ao montar uma equipe de pessoas que genuinamente se importam em servir, e dando a elas os sistemas e o treinamento para fazerem isso bem, um escritório de advocacia deixa de vender horas e passa a vender tranquilidade, confiança e resultados, criando uma base de clientes leais que se tornam seus maiores vendedores.
Em suma, a proposta de "Awesomely Simple" não é sobre simplificar o Direito, mas sobre aplicar uma simplicidade poderosa à gestão da prática jurídica. Os seis princípios de John Spence – Visão Vívida, Melhores Pessoas, Comunicação Robusta, Senso de Urgência, Execução Disciplinada e Foco Extremo no Cliente – formam um sistema integrado e interdependente. Eles exigem que os líderes de escritórios de advocacia abandonem a complexidade desnecessária e a burocracia paralisante para se concentrarem, com uma disciplina quase monástica, no que é verdadeiramente essencial para construir uma banca próspera e duradoura. A simplicidade, afinal, não é o ponto de partida, mas o destino final de quem domina a complexidade – um lugar que, como diria Oliver Wendell Holmes, vale a pena dedicar a vida para alcançar.