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"O 8º Hábito" de Stephen R. Covey para Advogados

Em um mundo jurídico que exige mais do que eficácia, o 8º Hábito de Stephen Covey — encontrar sua voz e inspirar os outros a encontrarem a deles — é o caminho para a grandeza. Este post explora como advogados podem transcender a rotina, alinhar talento e paixão, e liderar com propósito.

Quinze anos após a publicação de "Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes", um livro que se tornou um pilar da literatura de desenvolvimento pessoal e de gestão, Stephen R. Covey sentiu a necessidade de adicionar uma nova camada à sua filosofia. O mundo havia mudado. A Era Industrial, com seu foco em controle e eficiência, dava lugar à Era do Trabalhador do Conhecimento, que exigia criatividade, engajamento e propósito. Nesse novo cenário, ser meramente "eficaz" já não era suficiente. Era preciso aspirar à "grandeza". É nesse contexto que surge "O 8º Hábito: Da Eficácia à Grandeza" (The 8th Habit: From Effectiveness to Greatness). Covey argumenta que, enquanto os 7 hábitos são essenciais para o sucesso pessoal e interpessoal, o 8º Hábito é o que destrava o verdadeiro potencial humano. Ele o define como: encontrar sua voz e inspirar os outros a encontrarem a deles. Para a advocacia, uma profissão que lida com a complexidade humana, mas que muitas vezes se vê presa em estruturas rígidas e em uma busca incessante por produtividade, o 8º Hábito oferece um roteiro para uma prática mais significativa e impactante. Ele convida os advogados a transcenderem a rotina de processos e prazos para se conectarem com sua vocação mais profunda e, a partir daí, liderarem uma transformação em suas equipes, escritórios e na própria justiça.

Encontrando a Própria Voz: A Interseção de Talento, Paixão, Necessidade e Consciência

O primeiro passo do 8º Hábito é uma jornada de autodescoberta. Covey define "voz" como a manifestação única de nosso potencial, o ponto de convergência de quatro elementos fundamentais. Para um advogado, essa busca se traduz em uma série de reflexões profundas sobre sua carreira e propósito:

  1. Talento: Quais são seus dons e forças inatas? Não apenas as habilidades técnicas aprendidas, mas seus talentos naturais. Você é um comunicador excepcional, capaz de cativar um júri? Tem uma mente analítica que enxerga padrões em casos complexos onde outros não veem? Possui uma habilidade natural para mediar conflitos e construir consensos? O primeiro passo é reconhecer aquilo em que você é naturalmente bom.
  2. Paixão: O que energiza e excita você em sua prática? É a adrenalina de uma grande negociação de M&A? A satisfação intelectual de construir uma tese tributária complexa? A sensação de fazer a diferença ao defender uma causa de direitos humanos? A paixão é o combustível que o mantém engajado e resiliente diante dos desafios inerentes à profissão.
  3. Necessidade: O que o mundo (ou seu mercado, sua comunidade) precisa que se alinha com seus talentos e paixões? Não se trata apenas do que os clientes pagam, mas de uma necessidade real no mundo que você se sente compelido a atender. Pode ser a necessidade de pequenas empresas por assessoria jurídica acessível, a necessidade de proteger o meio ambiente através do direito ambiental, ou a necessidade de trazer mais eficiência ao sistema de justiça através da tecnologia.
  4. Consciência: O que sua bússola moral lhe diz que é a coisa certa a fazer? A consciência é a voz interior que guia suas escolhas. Ela o impede de usar seu talento de argumentação para defender uma causa que você sabe ser injusta. Ela o impele a tratar todas as partes com respeito, mesmo em um litígio acirrado. É a consciência que diferencia um advogado meramente técnico de um verdadeiro jurista.

Encontrar a própria voz, segundo Covey, é alinhar esses quatro elementos. É o advogado que usa seu talento para negociação (1), movido pela paixão por construir negócios (2), para atender à necessidade de startups que precisam de capital para crescer (3), fazendo isso de forma ética e transparente, garantindo que os interesses de todas as partes sejam protegidos (consciência) (4). Quando um advogado encontra essa interseção, o trabalho deixa de ser apenas um emprego e se torna uma vocação, uma fonte de energia e significado.

Expressando a Voz: A Força da Visão, Disciplina, Paixão e Consciência

Encontrar a voz é apenas metade da jornada. A outra metade é expressá-la, transformando o potencial interno em impacto externo. Covey argumenta que isso requer a manifestação de quatro atributos, que ele ilustra com a poderosa comparação entre George Washington e Adolf Hitler. Ambos possuíam imensa visão, disciplina e paixão. A diferença crucial, que levou um a ser o pai de uma nação e o outro um tirano, foi a consciência. Para o advogado, isso significa que a expressão de sua voz deve ser sempre guiada por princípios.

  • Visão: É a capacidade de ver o que é possível, de criar uma imagem mental do futuro desejado. Um advogado com visão não apenas reage aos problemas do cliente; ele antecipa tendências, enxerga oportunidades e ajuda o cliente a construir o futuro. É o advogado que, em vez de apenas defender uma empresa em um processo trabalhista, ajuda a redesenhar suas políticas de RH para criar um ambiente de trabalho mais justo e produtivo.
  • Disciplina: É a força de vontade para fazer o que é necessário para transformar a visão em realidade, mesmo quando é difícil. É o advogado que dedica horas de estudo para se tornar um especialista em uma nova área do direito, que mantém a compostura e o foco durante uma negociação tensa, que cumpre os prazos e que, como diz Albert E.N. Grey, "forma o hábito de fazer as coisas que os fracassados não gostam de fazer".
  • Paixão: Como já mencionado, a paixão é o fogo que impulsiona a ação. É o entusiasmo contagiante que inspira confiança nos clientes e motiva a equipe. Um advogado apaixonado não apenas trabalha com mais afinco, mas também atrai as melhores oportunidades e os melhores talentos.
  • Consciência: Este é o elemento que ancora os outros três. A consciência garante que a visão seja ética, que a disciplina não se transforme em crueldade e que a paixão não se torne uma ambição cega. É a consciência que lembra ao advogado que seu dever primordial não é com a vitória a qualquer custo, mas com a justiça.

Inspirando os Outros a Encontrarem Suas Vozes: O Papel do Líder

O 8º Hábito se completa quando o indivíduo, tendo encontrado e expressado sua própria voz, passa a ajudar os outros a fazerem o mesmo. Este é o cerne da liderança na Era do Trabalhador do Conhecimento. O líder não é mais um chefe que comanda e controla, mas um servidor que empodera. Para um sócio-gestor ou líder de equipe em um escritório de advocacia, isso se traduz em ações concretas:

  1. Modelar o Comportamento: A liderança começa pelo exemplo. O líder precisa demonstrar que vive os 7 hábitos: ser proativo, ter um objetivo em mente, priorizar, pensar ganha-ganha, ouvir antes de falar, criar sinergia e se renovar constantemente. Ele precisa agir com integridade, fazendo e mantendo promessas.
  2. Construir Confiança: A confiança é a base para que as pessoas se sintam seguras para encontrar e expressar suas vozes. Covey sugere duas formas poderosas de construir confiança. A primeira é "transformar a confiança em um verbo": comunicar às pessoas seu valor e potencial de forma tão clara que elas passem a enxergá-los em si mesmas. É o sócio que diz a um associado júnior: "Eu vejo em você um talento raro para a escrita. Quero que você assuma a liderança na redação da próxima peça importante". A segunda é sempre buscar a "terceira alternativa". Em um conflito de opiniões, em vez de tentar impor sua visão, o líder pergunta: "Você estaria disposto a buscar uma solução que seja melhor do que a minha e a sua?". Essa atitude desarma a defensiva e abre espaço para a verdadeira sinergia.
  3. Alinhar a Organização: Para que as vozes individuais se somem em um coro poderoso, a organização precisa estar alinhada. Covey propõe quatro disciplinas de execução:
    • Focar no crucialmente importante: Ter poucas metas claras e essenciais, em vez de dezenas de prioridades conflitantes.
    • Criar um placar atraente: Ter métricas visíveis que mostrem a todos, em tempo real, se a equipe está ganhando ou perdendo.
    • Traduzir metas em ações específicas: Desdobrar os objetivos estratégicos em tarefas claras e com responsáveis definidos.
    • Manter uma cadência de responsabilidade mútua: Realizar reuniões frequentes e curtas para que os membros da equipe se reportem uns aos outros sobre seus compromissos.
  4. Empoderar: Na Era do Conhecimento, o controle é um paradigma falido. Empoderar significa dar às pessoas a liberdade para escolherem como alcançar os resultados acordados. O líder-servidor não microgerencia as ações; ele define os resultados esperados e, então, sai do caminho, atuando como um facilitador que remove obstáculos e oferece ajuda. Ele constantemente pergunta à sua equipe: "Como está indo?", "O que estão aprendendo?", "Quais são suas metas?", "Como posso ajudar?" e "Como estou indo como líder?".

Para a advocacia, o 8º Hábito é um desafio e uma promessa. É o desafio de olhar para além da eficácia e buscar a grandeza. É a promessa de que, ao fazer isso, é possível construir uma carreira e um escritório que não sejam apenas lucrativos, mas também profundamente significativos, tanto para os advogados que neles trabalham quanto para a sociedade que eles servem. É a passagem de uma profissão de especialistas eficazes para uma comunidade de líderes que encontraram suas vozes e inspiram o mundo com seu coro da justiça.

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