"Flip the Funnel" de Joseph Jaffe para Advogados
Escritórios de advocacia gastam fortunas para atrair novos clientes, mas ignoram sua maior fonte de crescimento: os clientes atuais. Este post adapta a tese de "Flip the Funnel", mostrando como inverter o funil e focar em retenção, diálogo e ativação transforma clientes em seu time de marketing.
O marketing jurídico tradicional é uma caçada incessante por novos clientes. Escritórios investem em SEO, anúncios, eventos e produção de conteúdo com um único objetivo: atrair um estranho, transformá-lo em um "lead" e, com sorte, convertê-lo em um cliente pagante. Este é o funil de marketing clássico, um modelo centenário resumido pelo acrônimo AIDA (Atenção, Interesse, Desejo, Ação). No entanto, como o provocador autor e consultor de marketing Joseph Jaffe argumenta em seu livro "Flip the Funnel: How to Use Existing Customers to Gain New Ones", este modelo está quebrado. A obra, que infelizmente não possui uma tradução oficial para o português, pode ser entendida como "Vire o Funil: Como Usar Clientes Existentes para Conquistar Novos". Jaffe afirma que, na era digital, onde a voz do cliente é amplificada pelas redes sociais e a confiança é o ativo mais valioso, focar obsessivamente na aquisição é uma estratégia cara e ineficaz. A verdadeira oportunidade de crescimento não está no topo do funil, mas na base. A retenção, segundo ele, é a nova aquisição. Para a advocacia, uma profissão construída sobre relacionamentos e reputação, essa ideia é particularmente poderosa. "Flip the Funnel" propõe uma inversão radical de prioridades: em vez de gastar a maior parte de seus recursos para conseguir a primeira assinatura em um contrato, os escritórios deveriam focar no que acontece depois que o cliente assina. É hora de virar o funil.
O Funil Quebrado: Por que o Modelo AIDA Falha na Advocacia
O modelo AIDA, popularizado no início do século XX, vê o cliente como um alvo a ser conquistado. O trabalho do marketing termina quando a "Ação" (a contratação do serviço) é concluída. Como na famosa cena do filme "Glengarry Glen Ross", o lema é: "Assine na linha pontilhada!". O que acontece depois é problema de outra pessoa. Este modelo falha na advocacia moderna por várias razões:
- Ignora o Custo de Aquisição: É universalmente aceito que custa de 5 a 25 vezes mais para adquirir um novo cliente do que para manter um existente. No entanto, os orçamentos de marketing da maioria dos escritórios são desproporcionalmente alocados para a aquisição.
- Despreza o Lifetime Value (LTV): Um cliente satisfeito não contrata um serviço apenas uma vez. Ele pode precisar de assessoria em outras áreas, pode ter novos casos no futuro e pode indicar o escritório para sua rede de contatos. O modelo AIDA ignora completamente o potencial de receita de longo prazo de um cliente fiel.
- Subestima o Poder da Prova Social: Na era digital, a opinião de um cliente atual tem mais peso do que qualquer anúncio. Uma avaliação negativa pode destruir a reputação de um escritório, enquanto uma recomendação entusiástica é a forma mais eficaz de marketing. O funil tradicional não tem um mecanismo para cultivar e amplificar essa voz.
- Cria uma Lacuna entre Promessa e Realidade: O marketing focado em aquisição tende a fazer promessas grandiosas. Quando a experiência real do cliente não corresponde à promessa, o resultado é a decepção e a quebra de confiança, o que é fatal em um serviço de alta complexidade e confiança como o jurídico.
ADIA: O Funil Invertido
Jaffe propõe virar o funil de cabeça para baixo, transformando o AIDA em ADIA. A "Ação" (a contratação) não é o fim, mas o começo de um novo funil focado no cliente existente. Este novo funil tem quatro estágios:
- Reconhecimento (Acknowledgement): O cliente tomou a decisão de confiar em você. O primeiro passo é validar essa escolha e fazê-lo se sentir importante.
- Diálogo (Dialogue): A relação deixa de ser uma via de mão única (marketing "para" o cliente) e se torna uma conversa contínua.
- Incentivo (Incentivization): O cliente é recompensado não apenas por continuar comprando, mas por seu engajamento e defesa da marca.
- Ativação (Activation): O cliente se torna um evangelista, um membro ativo da sua comunidade e sua mais poderosa ferramenta de aquisição de novos clientes.
Como Aplicar o Funil Invertido na Advocacia
1. Reconhecimento: O Poder do "Obrigado"
Imediatamente após um cliente assinar um contrato, o que acontece? Na maioria dos escritórios, ele é passado para a equipe de operações e o próximo contato é uma fatura. O reconhecimento é sobre quebrar esse padrão.
- Agradecimento Genuíno: Um e-mail pessoal (não automatizado) do sócio principal agradecendo ao cliente pela confiança. Melhor ainda, um telefonema. Uma nota escrita à mão. Pequenos gestos que mostram que ele não é apenas mais um número.
- Relatório de Progresso: Mantenha o cliente informado, mesmo quando não há grandes novidades. Um e-mail rápido dizendo "Estamos trabalhando na sua petição inicial e o progresso está bom" evita a ansiedade do silêncio.
- Check-in de Cortesia: Um sócio ligar para um cliente importante apenas para "saber como as coisas estão", sem pauta de vendas, constrói um relacionamento que transcende o caso atual.
2. Diálogo: De Monólogo a Conversa
O marketing tradicional é um monólogo. O funil invertido é um diálogo. O objetivo é criar canais para que os clientes possam conversar com o escritório e, mais importante, entre si.
- Crie um "Clube de Clientes": Organize eventos exclusivos (cafés da manhã, webinars, workshops) apenas para clientes, sobre temas de seu interesse. O objetivo é conectar, não vender. Deixe que os clientes conversem entre si. Um CEO pode aprender mais com outro CEO sobre um desafio jurídico do que com o advogado.
- Escute Ativamente: Use ferramentas de monitoramento de redes sociais para saber o que seus clientes estão dizendo. Se um cliente reclama de um serviço (não necessariamente o seu) no LinkedIn, um comentário seu oferecendo ajuda pode valer mais do que dez anúncios.
- Não Automatize Relacionamentos: A tecnologia (CRM, automação de marketing) é útil para gerenciar informações, mas não substitui a interação humana. As pessoas querem falar com pessoas.
3. Incentivo: Recompense o Comportamento Certo
É preciso recompensar os clientes por sua lealdade e defesa. Jaffe faz uma pergunta brilhante: "Você já paga a uma rede de TV ou a uma plataforma de anúncios para persuadir pessoas a comprar de você. Por que não cortar o intermediário e pagar diretamente aos seus clientes para fazerem o mesmo?".
- Programa de Indicação Formal: Crie um programa claro onde clientes que indicam novos negócios recebem um benefício tangível (um desconto nos honorários, um serviço de consultoria gratuito, um convite para um evento exclusivo).
- Recompense o Engajamento: Um cliente que participa ativamente de seus webinars, que comenta em seus artigos, que oferece feedback construtivo, é extremamente valioso. Reconheça e recompense esse comportamento publicamente ou com um gesto pessoal.
- Acesso Exclusivo: Ofereça aos seus melhores clientes acesso antecipado a novos serviços, relatórios de inteligência de mercado ou análises legislativas.
4. Ativação: Transforme Clientes em Evangelistas
Este é o ápice do funil invertido, onde os clientes se tornam sua força de marketing. A ativação acontece quando você constrói uma comunidade em torno de sua marca.
- Construa uma Comunidade: A Nike não vende apenas tênis; ela criou uma comunidade global de corredores através do Nike+. Um escritório de advocacia especializado em startups pode criar uma comunidade online para fundadores, oferecendo não apenas conteúdo jurídico, mas também conexões, mentoria e um espaço para troca de experiências. A escolha de um novo fundador não será mais entre o escritório A ou B, mas entre contratar um escritório ou se juntar a uma comunidade que o ajudará a ter sucesso.
- Capacite seus Clientes: Dê a eles as ferramentas para contar suas histórias de sucesso. Crie estudos de caso detalhados, grave vídeos de depoimentos, convide-os para falar em seus eventos. A história de um cliente satisfeito é infinitamente mais poderosa do que qualquer discurso de vendas do próprio escritório.
Virar o funil exige uma mudança de mentalidade sísmica para a maioria dos advogados. Requer a humildade de admitir que o cliente, e não o escritório, está no centro do universo. Exige a disciplina de investir em relacionamentos de longo prazo em vez de buscar a gratificação instantânea de uma nova aquisição. E exige a coragem de transferir o poder do marketing do escritório para as mãos de seus próprios clientes. Mas para os escritórios que fizerem essa transição, a recompensa é imensa: um modelo de crescimento sustentável, uma marca construída sobre a confiança e um exército de clientes leais que não apenas compram seus serviços, mas que orgulhosamente vendem sua causa.