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"Different" de Youngme Moon para Advogados

Em um mercado jurídico saturado, a mesmice é o caminho para a irrelevância. Youngme Moon, em "Diferente", nos ensina a quebrar o ciclo da competição e a construir uma prática jurídica única. Este post traduz essa poderosa lição para a realidade da advocacia brasileira, mostrando como ser diferente.

No universo jurídico brasileiro, um oceano de escritórios de advocacia compete ferozmente pela atenção de um mesmo grupo de clientes. Todos parecem seguir uma cartilha invisível: ter um site com design sóbrio, listar uma miríade de áreas de atuação, publicar artigos sobre as últimas decisões dos tribunais superiores e prometer "excelência" e "atendimento personalizado". Essa corrida, no entanto, raramente leva à liderança; na maioria das vezes, conduz a uma perigosa zona de conforto da mediocridade. É sobre essa armadilha que a professora de Harvard, Youngme Moon, discorre em sua obra provocadora, "Different", publicada no Brasil com o título "Diferente: Quando a exceção dita a regra". O livro é um poderoso antídoto contra o que ela chama de "mentalidade de rebanho" e a "incrível corrida para a mesmice". Para o advogado brasileiro, que enfrenta uma pressão constante para se conformar, aumentar seu portfólio de serviços e imitar os movimentos dos grandes escritórios, a mensagem de Moon não é apenas relevante, é vital. Este post se propõe a mergulhar nas estratégias de diferenciação propostas pela autora, traduzindo-as para o ecossistema jurídico nacional e demonstrando, com exemplos práticos e aprofundados, como um escritório de advocacia pode abandonar a competição exaustiva e se tornar verdadeiramente único.

Moon inicia sua análise desconstruindo a lógica competitiva que domina a maioria dos mercados. Ela descreve um ciclo vicioso: uma empresa introduz uma nova característica ou serviço que agrada aos clientes. Imediatamente, os concorrentes se apressam para copiar essa inovação. Em pouco tempo, o que era um diferencial se torna um pré-requisito básico, elevando o custo e a complexidade para todos, sem que ninguém ganhe uma vantagem sustentável. Pense no mercado jurídico. Um grande escritório de São Paulo lança uma área de "Direito Digital e Proteção de Dados" em resposta à LGPD. Em poucos meses, "LGPD" se torna um item obrigatório no menu de serviços de centenas de outros escritórios, muitos dos quais sem a profundidade técnica necessária. O mesmo ocorreu com o ESG, com as práticas de "compliance" e, mais recentemente, com a inteligência artificial. O resultado é uma homogeneização massiva. Os clientes olham para o mercado e veem um mar de opções indistinguíveis, forçando-os a decidir com base no único fator que resta: o preço. Essa é a receita para a comoditização da advocacia, um cenário onde o valor da expertise jurídica é erodido pela falta de diferenciação. Moon argumenta que a verdadeira oportunidade não está em adicionar mais uma camada de tinta no seu carro para que ele se pareça com o do vizinho, mas em ter a coragem de construir um veículo completamente diferente.

Para escapar dessa armadilha, Youngme Moon apresenta três caminhos estratégicos, três formas de pensar que desafiam a lógica convencional. A primeira é a Estratégia da Reversão. Uma marca de reversão não tenta ser melhor que a concorrência nos atributos tradicionais; ela deliberadamente os remove ou os reduz, enquanto oferece benefícios inesperados em outras áreas. O exemplo clássico é o Google, que surgiu em uma era de portais de internet (como Yahoo!) abarrotados de notícias, cotações e links. A página inicial do Google era um deserto: um logo e uma caixa de busca. Ao remover o ruído, ofereceu uma clareza e uma velocidade que ninguém mais tinha. No mundo jurídico, um escritório de reversão poderia ser aquele que, em vez de listar trinta áreas de atuação, declara orgulhosamente em seu site: "Somos especialistas em uma única coisa: reestruturação de dívidas para empresas do agronegócio. Não fazemos mais nada". Essa remoção de opções, que a concorrência considera essencial, transmite uma mensagem de foco e profundidade extremos. Ao mesmo tempo, esse escritório poderia oferecer algo inesperado, como um "diagnóstico financeiro-jurídico" gratuito para potenciais clientes ou um portal online com atualizações diárias sobre o mercado de commodities, algo que nenhum escritório "generalista" faria. Outro exemplo seria um escritório que elimina a cobrança por hora, um pilar da advocacia tradicional, e trabalha exclusivamente com modelos de assinatura ou taxa de sucesso, oferecendo em contrapartida uma transparência radical e previsibilidade de custos que os clientes anseiam, mas raramente encontram.

A segunda via para a diferenciação é a Estratégia da Ruptura. Marcas de ruptura não apenas mudam os atributos de uma categoria, elas a redefinem completamente, quebrando as expectativas mentais do consumidor. O exemplo de Moon é o Swatch, que pegou o relógio, um símbolo de status e precisão suíça, e o transformou em um acessório de moda divertido, colorido e acessível. Ele não era um relógio melhor; era uma coisa diferente. Na advocacia, uma prática de ruptura poderia ser a criação de um serviço jurídico que não se parece com advocacia. Imagine um escritório que, em vez de vender "consultoria em LGPD", oferece um produto chamado "Selo de Conformidade Digital Anual". Este serviço não seria vendido como horas de consultoria, mas como uma assinatura que inclui auditorias anuais, treinamento para equipes, um canal de denúncias terceirizado e um "seguro" para cobrir os custos iniciais de uma eventual fiscalização da ANPD. O cliente não está comprando tempo de advogado; está comprando paz de espírito, um produto tangível. Outro exemplo seria um escritório especializado em startups que, em vez de cobrar honorários para a elaboração de contratos sociais e acordos de acionistas, oferece um "Pacote de Fundação", que inclui não apenas os documentos, mas também a conexão com investidores-anjo de sua rede, mentorias sobre governança e um modelo de "stock options" pré-aprovado. Ele deixa de ser um prestador de serviços jurídicos para se tornar um parceiro estratégico na jornada do empreendedor, quebrando a categoria tradicional de "advogado de startup".

O terceiro e mais radical caminho é a Estratégia da Hostilidade. Marcas hostis, longe de tentarem agradar a todos, parecem deliberadamente alienar uma parte do mercado para criar um fã-clube fervoroso. Elas não escondem suas "falhas"; elas as celebram como parte de sua identidade. O exemplo da Mini, que em sua publicidade enfatizava o quão pequeno o carro era, é emblemático. No contexto jurídico, isso pode parecer um suicídio, mas é uma ferramenta poderosa. Um escritório "hostil" poderia se posicionar como radicalmente seletivo. Seu site poderia dizer: "Nós só aceitamos 10 novos casos por ano. Se você não está buscando uma revolução em seu setor, não somos o escritório para você". Essa postura cria uma aura de exclusividade e confiança extrema na própria capacidade. Outra forma de hostilidade é a ideológica. Um escritório de direito ambiental que se recusa publicamente a atender empresas de mineração ou um escritório trabalhista que declara abertamente que só representa empregados, nunca empregadores. Essa hostilidade a um lado do mercado gera uma lealdade inabalável do outro. É uma estratégia que repele a maioria, mas cria uma tribo de seguidores que não veem o escritório apenas como um fornecedor, mas como um aliado em sua causa. Eles não se importam em pagar mais ou esperar mais, porque sentem que aquele escritório é o único que verdadeiramente os representa.

Implementar qualquer uma dessas estratégias exige uma coragem imensa. Exige que o sócio-gestor resista ao instinto de olhar para o lado e copiar o que a banca concorrente está fazendo. Exige a disciplina de dizer "não" a oportunidades que estão fora do seu foco, mesmo que pareçam lucrativas no curto prazo. E, acima de tudo, exige um profundo autoconhecimento. Um escritório não pode simplesmente decidir ser "de ruptura" ou "hostil" da noite para o dia. Essa identidade precisa emanar de uma verdade interna, dos valores e da personalidade dos seus sócios. A lição fundamental de Youngme Moon em "Diferente" é que a diferenciação significativa não é um exercício de marketing, mas um ato de identidade. Em um mercado jurídico brasileiro cada vez mais lotado e barulhento, a única forma de ser ouvido não é gritar mais alto, mas falar uma língua que só você sabe falar. É abandonar a corrida para a mesmice e ter a audácia de construir um caminho próprio, mesmo que, a princípio, ninguém mais o entenda. Porque, no final, as marcas e os profissionais que admiramos não são aqueles que seguiram as regras do jogo, mas aqueles que tiveram a coragem de criar um jogo completamente novo.

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